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Refletindo uma fase difícil em que o clube se encontrava então, em março de 1976 o jornal-laboratório Entrevista, da Faculdade de Comunicação de Santos (Unisantos, da Sociedade Visconde de São Leopoldo) publicou esta matéria:

Centro Português de Santos, no início do século XX
Imagem: cartão postal da época

Memórias do Real Centro Português. Só memórias

Ali brilharam muitas luzes e foram recepcionadas importantes figuras da política portuguesa. O grande salão, decorado com pinturas de Benedito Calixto e Charleaux, já foi palco de bailes requintados, no mais puro estilo das cortes portuguesas. Hoje, apesar da biblioteca com mais de 1.500 volumes, dentre eles um raro exemplar do Lusíadas, de Camões, apesar das pinturas perfeitamente conservadas, bem como o velho edifício de estilo manuelino, o Centro Português, que uma vez já foi o Real Centro Português, luta para sobreviver.

Há somente 600 sócios, e mesmo assim, porque a entidade está aberta também aos brasileiros, coisa que nem sempre aconteceu enquanto milhares de importantes representantes da colônia portuguesa se reuniam em torno da entidade. O seu presidente e os diretores correm o risco de tornarem-se vitalícios, sendo substituídos somente em caso de morte porque não existe quem queira se candidatar.

Diretoria do Real Centro Português, em janeiro de 1902
Foto publicada na edição especial da Revista da Semana/Jornal do Brasil de janeiro de 1902, pág.34

A história do Real Centro Português começa há 81 anos (N.E.: considere-se que o texto foi publicado em março de 1976), quando o porto tornava-se importante e ia empurrando a pequena cidade para o interior da Ilha de São Vicente. Naquele ano de 1895, reuniram-se na Praça da República Luiz José Mattos, Manuel Homem de Bittencourt, Joaquim da Fonseca Saraiva, José M. de Azevedo Magalhães e José Maria Soares, todos proeminentes representantes da colônia portuguesa. E da reunião surgiu uma idéia: a criação de um centro que congregasse a colônia. O primeiro encontro com esta finalidade foi feito no Teatro Guarani, o mais luxuoso da época, na Praça dos Andradas.

Ali mesmo o Centro foi fundado, a 1º de dezembro, com votos de um grande número de portugueses, que comemoravam neste dia a restauração da Independência de Portugal. Vinte e oito dias depois, estava instalada a primeira sede: uma casa modesta, a de número 28 da Praça da República. A atividade do Real Centro Português era a de congregar o maior número possível de portugueses residentes em Santos e proporcionar-lhes recreação, cultura e assistência à moda da terra que haviam deixado do outro lado do oceano.

A 8 de outubro de 1900, no ano do novo século, o Real Centro transfere-se para o local onde até hoje está: a esquina da Rua Amador Bueno com Martim Afonso, na época um nobre lugar para o luxuoso edifício de estilo manuelino, construído por Antônio Domingues Pinto.

Barco no Porto de Santos, ou A Canhoneira Pátria, pintado por Benedito Calixto em 1905
Foto da tela: David Rego Jr., in CD-ROM Benedito Calixto -150 anos,
editado em 2003 pela Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto, Santos/SP

Em 1911, a inauguração do salão principal foi motivo para que o Real Centro tentasse realizar sua mais audaciosa incursão nas relações com a pátria-mãe: um convite foi prontamente aceito pelo rei D. Carlos. No entanto, já durante os preparativos para a grande festa, dois meses antes da data marcada, o rei foi assassinado em Portugal.

Em Santos há constrangimento, e a angústia que se seguiu provocou o adiamento da inauguração oficial por tempo indeterminado. Somente em 1957 o presidente Craveiro Lopes veio inaugurá-lo, afixando, em nome do Rei, a placa que deveria ter sido colocada 46 anos antes.

O Real Centro continuava restrito aos imigrantes portugueses, assegurando o estatuto, em seu artigo 4, a participação exclusiva de um número ilimitado de sócios unicamente portugueses. O mesmo artigo garantia os direitos sociais aos poucos sócios brasileiros que faziam parte do Real centro, cujo número, no entanto, não poderia ser aumentado em hipótese alguma; fechava também o acesso de brasileiros aos cargos de direção e eliminava seu direito de voto. No capítulo dos deveres dos sócios estava previsto o pedido de demissão do quadro associativo, quando, voluntariamente ou não, perdessem a nacionalidade portuguesa.

Uma situação restritiva que só seria eliminada muitos anos mais tarde, num esforço já a esta altura voltado para a necessidade de impedir que o Centro Português, nome adotado em 1944, perecesse. Mesmo que desde 46 o Centro fosse reconhecido oficialmente como Associação entre Estrangeiros, pelo ministro da Justiça, Carlos Luz, uma crise evoluía dentro dos sóbrios salões. Os sócios desaparecendo, o caráter exclusivista perdendo todo o conteúdo e finalidade. Em pouco, o Centro tornou-se anacrônico. E hoje tenta reerguer-se das cinzas do tempo de glória.

A biblioteca - Uma pequena sala cheia de livros colocados nas prateleiras ao acaso, não respeitando nenhuma regra de disposição e onde raramente se vê alguém. Assim é a biblioteca do Centro Português, composta por cerca de 1.500 volumes que não possuem registro e nem estão catalogados. "Nem mesmo o número exato sabemos" - explica o velho zelador do Centro, que há 16 longos anos livra o grande edifício da poeira acumulada.

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É em meio à desorganização que está a velha edição especial do Lusíadas de Camões, a "estrela" da biblioteca: um grande livro de quase um metro quadrado em uma caixa de cor grená. O livro foi publicado em 1880, na cidade do Porto, e dado de presente ao Imperador do Brasil, D. Pedro II, pelo editor Emílio Biel. Trata-se de uma edição crítica, comemorativa do terceiro centenário da morte de Luís de Camões, baseada na segunda publicação do livro em 1572 e na edição de 1834 de Hamburgo. A primeira parte do livro contém o poema, e a segunda, análises profundas elaboradas por Barreto Feio e Gomes Monteiro.

A Bíblia e o Berço da Nacionalidade - No primeiro andar, na sala da secretaria, em uma caixa de dois compartimentos, construída em madeira escura e de ar solene, está guardada a alma do Centro: um exemplar dos Lusíadas, a "Bíblia Portuguesa" como todos o chamam ali, e um punhado e terra colhida no Castelo de Guimarães, "O Berço da Nacionalidade", trazida de Portugal pelo sócio Carlos Herdade. No outro lado da mesma sala, uma plaqueta explica o cuidado e a importância dispensada a um pedaço de rocha vulcânica: "Pedra Sagrada do Promontório de Sagres".

Neste mesmo andar existem outras duas salas: uma antecâmara e o salão nobre, chamado Camoniano, onde se realizam as reuniões do Conselho Deliberativo, as solenidades e os chás beneficentes. No teto deste salão, pinturas representando passagens dos Lusíadas e, nas paredes, pinturas de Benedito Calixto (1905) e Charleaux (1953), além de outras de autores desconhecidos.

A Casa da Madeira fala do Centro - "Já fui diretor do Centro Português, mas desisti devido a certas restrições que até pouco tempo faziam à admissão de sócios brasileiros. Poucos eram os que conseguiam entrar ali". Quem afirma isso é Adelino Ferreira Gomes, 28 anos de Brasil, advogado e presidente da Casa da Madeira. "As associações de estrangeiros devem ter como objetivo, apenas, a manutenção das tradições da terra natal e não o separatismo de costumes e culturas. Hoje, o Centro Português só sobrevive devido aos almoços e recepções oferecidas a portugueses influentes e brasileiros ligados à colônia pelo cônsul".

Adelino conta que já pensou diversas vezes na possibilidade de fusão de duas entidades portuguesas, mas sempre acaba desistindo, porque "não nos interessa à força e sim uma integração cada vez maior com os brasileiros. As pequenas associações só devem continuar existindo para preservar o folclore".

Nem folclore mais - No Centro Português, o folclore resume-se, hoje, ao Rancho Verde Gaio Mirim, porque o rancho adulto já foi extinto há muito tempo. Este pequeno grupo já se apresentou em diversos estados e cidades do interior paulista, na última vez, durante a festa de comemoração do aniversário do Município de Peruíbe.

E as atividades estão restritas às solenidades do dia de fundação (1º de dezembro), o Dia da Raça (10 de junho) e aos almoços mensais em que tentam reunir os sócios ainda fiéis. Comemoração maior só mesmo na época junina, quando é elaborado um programa de festividades para todo o mês. Há dois anos atrás, era o carnaval a festa maior, mas desde o sábado de 74, quando apareceram no salão na hora do baile apenas alguns diretores e a banda, desistiram até mesmo de pensar nisso. E hoje, como sinal dos problemas, os diretores já estão pensando em arrendar o orgulhoso Teatro Júlio Dantas à Empresa Cinemas de Santos Ltda., para que sejam realizadas matinês diárias. De resto, só saudades.

 

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